Durkheim – “Sociedade como fonte do pensamento lógico”

Os teóricos que tentaram explicar a religião em termos racionais viram nela um sistema de idéias, que responde a um determinado objeto, este objeto foi concebido de diferentes maneiras, sem grande importância. As crenças eram representações e os ritos uma tradução exterior, contingente e material daqueles estados interiores que eram considerados como tendo um valor intrínseco. Essa concepção é muito difundida, e os debates à respeito, giram em torno de saber se ela pode ou não ser conciliada com a ciência. Porém, aqueles que vivem religiosamente, “discordam” da maneira de ver a religião sem corresponder à experiência quotidiana. Para eles, a religião tem função de nos fazer agir, de nos ajudar a viver. Um homem que crê em seu deus tem mais força perante as dificuldades, ele é elevado acima da sua condição de homem. O primeiro artigo de toda fé é a crença na salvação pela fé. Uma idéia é o elemento de nós mesmos.

O culto não é simplesmente um sistema de símbolos pelos quais a fé se traduz exteriormente, é a coleção de meios pelos quais ele se cria e se recria periodicamente; consistindo em operações materiais ou mentais, ele é sempre eficaz. Esse sentimento não pode ser apenas ilusório, admite-se que as crenças tenham uma experiência específica, e seu valor demonstrativo não tem menor valor que as experiências científicas, são apenas diferentes.

As mitologias são representadas de muitas formas diferentes, a causa de que é feita a experiência religiosa é a sociedade, pois o que faz o homem é o conjunto de bens intelectuais que constitui a civilização, e esta é a obra da sociedade.

As categorias fundamentais do pensamento e da ciência têm origens religiosas, isso também ocorre com a magia; portanto, pode-se dizer que quase todas as grandes instituições sociais nasceram da religião. Se a religião englobou tudo que há de essencial na sociedade, é que a idéia da sociedade é a alma da religião. Assim, as forças religiosas são forças humanas, forças morais; elas adquirem uma espécie de natureza física, que a leva ser confundida com o mundo material, dessa maneira só se vê o superficial; mas é da consciência que vem os elementos essenciais de que são feitas; assim, mesmo as coisas mais impessoais e anônimas não passam de sentimentos objetivados. Para se consagrar uma coisa, ela é colocada em contato com uma fonte energia religiosa. A técnica religiosa parece ser uma espécie de mecânica mística. Todas as religiões são espiritualistas: desprendem poderes espirituais que agem sobre a vida moral. A formação de um ideal trata-se de um produto natural da vida social. Uma sociedade não se pode criar ou se recriar, sem criar um ideal. A sociedade real e a ideal vivem juntas. Foi na vida coletiva que o indivíduo aprendeu a idealizar; assimilando os ideais elaborados pela sociedade que conseguiu conceber o ideal, introduzindo-o na sua esfera de ação. Assim a idealização não tem nada de misterioso. O ideal pessoal deriva pois do ideal social.

A sociedade não é o ser alógico, incoerente e fantástico, que se quer ver nela; pelo contrário, a consciência coletiva é a forma mais elevada da vida psíquica. Atribuir origens sociais ao pensamento lógico é relacioná-lo a uma causa que o envolve naturalmente. Se o pensamento lógico tende cada vez mais a se afastar dos elementos subjetivos e pessoais que traz na sua origem, é porque se desenvolveu uma vida social de tipo novo cada vez mais.

Assim, não quer dizer que a ciência fica de um lado e a moral e a religião do outro, esses fatores implicam que o indivíduo é capaz de se elevar acima do seu próprio ponto de vista e viver uma vida impessoal, esses diferentes tipos de atividades humanas derivam de uma única e mesma fonte.

A ciência e a moral implicam que o indivíduo é capaz de se elevar acima de seu próprio ponto de vista e viver uma vida impessoal.

Todo o “mistério” desapareceu quando se reconheceu que a razão impessoal não é senão outro nome dado ao pensamento coletivo; pois este só é possível pelo agrupamento de indivíduos, assim, eles a supõem porque só podem se manter agrupando-se.

Assim, existe o impessoal em nós porque existe aí o social e como a vida social compreende representações e práticas, essa impersonalidade se estende naturalmente às idéias como aos atos.

Atribuir à sociedade o papel preponderante na gênese da nossa natureza não é negar a criação; pois a sociedade dispõe precisamente de um poder criador que nenhum ser observável pode igualar. Assim, a Sociologia parece ser chamada a abrir um novo caminho para a ciência do homem.

 

Comentário, Antropologa Clássica, ano de 2002:

Durkheim – Coleção Os grandes cientistas sociais nº 1; org. José Albertino Rodrigues; coord. Florestan Fernandes, 9ª edição, 3ª impressão, Editora Ática, São Paulo, 2001

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